quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Tempo-Comunidade de AGRICULTURA I


RELATÓRIO DO TEMPO COMUNIDADE DESENVOLVIDO NA DISCIPLINA AGRICULTURA I  
LOCALEscola Professora Genoveva Maria da Costa, Comunidade Alecrim / Girau do Ponciano
CONTEXTUALIZAÇÃO
            No último dia 27 de julho de 2012, após contatarmos com a diretora, a coordenadora pedagógica e os funcionários da Escola Genoveva e explicarmos sobre a aula, nos instalamos numa sala simples, ventilada e com o material que precisávamos – quadro, giz e apagador. A turma foi chegando aos poucos e as conversas informais aconteceram naturalmente acerca das condições das escolas, da comunidade e das atividades agrícolas praticadas pelas famílias, até o início da aula, por volta das quatorze horas. Nessa mesma tarde, aconteceu uma reunião com pais, mães, professores e gestores, uma atividade que segundo a diretora, acontece pelo menos duas vezes ao ano, para discutir os aspectos que condicionam o bom funcionamento da escola, as dificuldades e conquistas dos que atuam diretamente com os alunos e a necessidade de ampliar a participação dos pais e das mães na educação continuada dos filhos, integrando as ações e dividindo as responsabilidades com os professores, funcionários e gestores.
Ratificando o propósito de conhecer alguns dados da localidade, a turma declarou que a Comunidade Alecrim é composta por cerca de oitenta famílias e possui duas escolas de ensino fundamental e outros ambientes comunitários, utilizados pela população e pelos gestores públicos. Mesmo trabalhando com turmas do primeiro ao nono ano do Ensino Fundamental, a Escola Genoveva Maria não dispõe de sistema de coleta de água de chuva e por isso depende do abastecimento semanal feito pela prefeitura, por meio de um carro pipa que deposita a água numa cisterna e é canalizada para a cozinha. Como as duas escolas não comportam todos os alunos – segundo professoras da outra escola – a prefeitura mantém salões particulares alugados para atender os alunos da Educação Infantil e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Comunidade Alecrim e segundo relatos, apesar das promessas políticas repetidas em anos de eleições, tanto as escolas quanto as salas improvisadas funcionam precariamente, sem as condições apropriadas e recomendadas pelo Ministério da Educação.
APROXIMAÇÕES E APREENSÕES DA AULA NO TEMPO COMUNIDADE
Como o tema “Agricultura Familiar e Convivência com o Semiárido” é abrangente e se aproxima diretamente das perspectivas de Desenvolvimento Local, a turma foi provocada a debater vários aspectos que caracterizam a Comunidade Alecrim. Embora a população disponha de uma equipe técnica do Programa de Saúde da Família (PSF) não existe um posto de saúde equipado para atender às demandas e o atendimento é feito num salão improvisado, alugado pela prefeitura, há pelo menos cinco anos. Também não tem sistema de saneamento, há lixo depositado em vários lugares, misturado com material orgânico que poderá ser utilizado nas lavouras e as estradas vicinais não são pavimentadas, dificultam o trânsito de pessoas, motos e automóveis e contribuem para a ocorrência frequente de acidentes.
Os transportes coletivos são poucos e precários, a prefeitura não contribui com o deslocamento das alunas e o acesso da turma à Uneal só é possível com o uso de motos próprias ou alugadas, num percurso longo e cansativo, que demanda o esforço das alunas e das suas respectivas famílias, importantes colaboradoras nas labutas cotidianas das casas, das roças, das escolas onde trabalham e também na formação universitária, um sonho que está sendo realizado com muita luta e garra, segundo as próprias alunas. Só um aluno participou da aula, mas apesar de não reclamar das dificuldades explicitadas, concordou com as declarações das companheiras do Procampo.
Nesse contexto permeado de dificuldades e ambivalências, a turma citou, com orgulho, as atividades agrícolas que conseguem realizar anualmente, a exemplo dos cultivos de milho, feijão, abóbora, mandioca e fumo, permeados por relações desiguais entre os que possuem terras e os demais meios de produção e os que não possuem. Dentre as espécies cultivadas predomina a cultura do fumo, com características relevantes para as discussões acerca da agricultura familiar na região semiárida: necessidade de arrendamento da terra; compra de insumos químicos e orgânicos; trabalho intenso desde o preparo da terra até a comercialização; aplicação de adubos químicos e de agrotóxicos, com prejuízos visíveis para a saúde de quem cultiva, beneficia e consome; falta de informações sobre sistemas produtivos agroecológicos; desconhecimento acerca da produção e do uso de defensivos naturais e biofertilizantes; comercialização do produto final para atravessadores a preços ditados por estes, geralmente pouco compensadores, principalmente para as famílias que arrendam terras.
Em suma, ficou evidente que apesar da concentração da terra nas mãos de poucos e da consequente falta de terras e dos outros meios de produção para a maioria da população rural da região, as famílias persistem no cultivo de fumo, mesmo em condições muitas vezes desfavoráveis economicamente, pela falta de capital de giro, de acesso a créditos subsidiados e de controle dos preços dos produtos. Mesmo com essas e outras dificuldades, os mutirões para os trabalhos cooperativos de destalamento – retirada dos talos das folhas – e formação das cordas de fumo têm fortalecido, historicamente, os laços de amizade e as relações de reciprocidade e confiança mútua, presentes na agricultura familiar como importantes instrumentos de organização associativa.
Nessa mesma perspectiva, foram apontadas algumas estratégias locais, condizentes com a perspectiva da Convivência com o Semiárido no âmbito da agricultura familiar: a) armazenamento de sementes de milho, feijão, abóbora e fumo para os anos subseqüentes; b) estocagem de grãos e farinha para alimentação das famílias; c) armazenamento e uso de talos das folhas de fumo, esterco e outros produtos na adubação orgânica das lavouras; d) coleta e armazenamento de água de chuva em cisternas, tanques e barragens; e) produção e armazenamento de ração para os animais; f) uso de águas residuais no cultivo de espécies frutíferas. Se por um lado, essas ações parecem contraditórias quando são comparadas com as práticas do cultivo de fumo, por outro lado, evidenciam um acúmulo de experiências que fortalecem as vias de conquista da autonomia das famílias, que se materializa por meio do acesso à informação e às políticas públicas de educação, saúde, transporte, energia, água potável, segurança, crédito, assistência técnica e extensão rural, segurança alimentar dentre outras. No entanto, ficou clara a necessidade do envolvimento dos educadores nos espaços públicos locais e nos processos de transformação, promovendo debates em sala de aula, na universidade, nas associações rurais, nos conselhos municipais e nos espaços públicos.
Esses e outros assuntos foram aprofundados em dois momentos:
O primeiro momento foi na sala de aula da Escola Genoveva, com um debate acerca dos conceitos e contradições dos paradigmas de ‘Combate à Seca’ e de ‘Convivência com o Semiárido’, ilustrando aspectos históricos das políticas públicas voltadas para a agricultura convencional e o agronegócio, negligenciando – propositadamente – a agricultura familiar, com resultados negativos que ora se evidenciam nas condições locais: pequenas parcelas de terra disponíveis para as famílias morarem, cultivarem as lavouras e criarem seus animais; falta de política de assistência técnica e extensão rural; uso cada vez mais intenso de insumos químicos ofertados no comércio, sem as orientações técnicas apropriadas para a utilização; falta de acesso a créditos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf); falta de participação do município em determinadas políticas públicas de fomento à agricultura familiar; fragilidade na organização associativa, com influência direta nas práticas individuais sobrepondo as dinâmicas coletivas e inexistência de ações públicas de incentivo à melhoria das condições de vida das famílias rurais.
Partindo-se dessas inferências, foram trabalhadas algumas informações técnicas a respeito da importância da captação e do armazenamento de água de chuva para a população rural e a agricultura familiar, citando as ações dos Programas Um Milhão de Cisternas (P1MC) e Uma Terra e Duas Águas (P1+2), realizados pela Articulação no Semiárido (ASA) com recursos financeiros do governo federal, de instituições privadas e da cooperação internacional. Especificamente, demonstrou-se a relação entre o volume de água de chuva que precipita sobre as casas e a capacidade de armazenamento dessa água, considerando os períodos de estiagens que compõem o clima da região semiárida e as consequências do atraso das chuvas que afetam os sistemas produtivos agrícolas e as famílias do campo. Para facilitar a apreensão dos conhecimentos e provocar o debate acerca do tema, a demonstração de que 1,0mm de chuva equivale a 1,0 litro de água/m2 chamou a atenção da turma pela importância desse tipo de informação no planejamento das atividades agrícolas e ficou claro que as reações são condizentes com as declarações de que “...até então as pessoas desconheciam  seca na região em que moram, apesar de conviverem com dificuldades de água potável”. Também cabe registrar que os dados apresentados provocaram espanto e surpresa na turma, quando relacionados com o volume de chuvas que cai anualmente sobre as casas da região, a capacidade de cada família captar e armazenar as águas das chuvas e as necessidades para a população rural viver de forma mais sustentável com as condições locais de clima, vegetação, solos, organização comunitária dentre outros aspectos.
Após as explicações e os debates em sala de aula, deu-se o segundo momento, com uma visita da turma nas casas próximas à Escola Genoveva, onde foram identificadas várias relações das famílias locais com a perspectiva da Convivência com o Semiárido. Por coincidência, um pedreiro da Articulação no Semiárido (ASA) estava construindo cisternas e foi possível conhecer parte das etapas que compreendem a construção: escavações feitas pelas famílias; placas fabricadas pelos pedreiros; cisternas sendo construídas com a participação das famílias e cisternas prontas. Também foram vistas outras formas de captação de água de chuva construídas pelas próprias famílias (tanques e cisternas de alvenaria); plantios de culturas anuais e permanentes; adubo orgânico feito de talo da folha de fumo e de outras espécies; cultivo de plantas medicinais e uma Casa de Farinha que já serviu para produção comunitária de derivados de mandioca, mas que está desativada por conta de alguns fatores: redução do cultivo de mandioca, compra da farinha já processada, comercialização das raízes para atravessadores de várias regiões, diminuição do tamanho das terras e uso destas no cultivo de fumo, dentre outros.
A construção de cisternas chamou a atenção da turma e algumas alunas que já conheciam as dinâmicas da ASA e do P1MC em suas comunidades, comentaram a evolução das técnicas de construção em comparação com as ‘antigas’ cisternas de alvenaria, o sistema de coleta e armazenamento de água de chuva e os critérios de seleção das famílias, já que algumas delas não foram cadastradas para o processo de conquista das cisternas. Para ampliar os debates acerca da autonomia da população por meio do acesso à água, foram esclarecidos os critérios de seleção das famílias e os caminhos para as alunas buscarem informações e se inscreverem, já que o propósito da ASA é promover a universalização do acesso à água de chuva, pela população rural.
            Com a caminhada na Comunidade e o farto café na casa de D. Cícera, foi encerrada a aula e definidas essas ações para o próximo dia trinta e um de agosto: socialização das informações com toda a turma e entrega da Cartilha “Caminhos para Convivência com o Semiárido” e do Vídeo “Plantando Sonhos, Construindo Realidades”, ambos produzidos pela ASA.
 Prof. Ms. João B. B. Amorim - Disciplina: Agricultura I

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